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ESTADO PRIMITIVO DO GLOBO
O achatamento dos pólos e outros fatos concludentes são indícios
certos de que o estado da Terra, na sua origem, deve ter sido
o de fluidez ou de flacidez, estado esse oriundo , de se achar
a matéria ou liqüefeita pela ação do fogo, ou diluída pela da
água.
Costuma-se dizer, proverbialmente: não há fumaça sem fogo. Rigorosamente
verdadeira, esta sentença constitui uma aplicação do princípio:
não há efeito sem causa. Pela mesma razão, pode-se dizer: não
há fogo sem um foco. Ora, pelos fatos que se passam sob as nossas
vistas, não é apenas fumaça o que se produz na Terra, mas fogo
bastante real, que há de ter um foco. Vindo esse fogo do interior
do planeta e não do alto, o foco lhe há de estar no interior e,
como o fogo é permanente, o foco também o há de ser.
O calor, cujo aumento é progressivo à medida que se penetra no
interior da Terra e que, a certa profundidade, chega a uma temperatura
altíssima; as fontes térmicas, tanto mais quentes, quanto mais
profunda lhes está a nascente; os fogos e as massas de matéria
fundida esbraseada que os vulcões vomitam. como por vastos respiradouros,
ou pelas fendas que alguns tremores de terra
abrem, não deixam dúvida sobre a existência de um fogo interior.
A
experiência demonstra que a temperatura se eleva de um grau a
cada 30 metros de profundidade,donde se segue que, a uma profundidade
de 300 metros,o aumento é de 10 graus; a 3.000 metros, de 100
graus,temperatura da água a ferver; a 30.000 metros, ou seja,
7 ou 8 léguas, de 1.000 graus; a 25 léguas, de mais de 3.300 graus,
temperatura a que nenhuma matéria conhecida resiste à fusão. Daí
ao centra, ainda há um espaço de mais de 1.400 léguas, ou 2.800
léguas em diâmetro, espaço que seria ocupado por matérias fundidas.
Conquanto
não haja aí mais do que uma conjetura, julgando da causa pelo
efeito, tem ela todos os caracteres a probabilidade e leva à conclusão
de que a Terra ainda é uma massa incandescente recoberta de uma
crosta sólida da espessura de 25 léguas no máximo, o que é apenas
a 120ª parte do seu diâmetro.
Proporcionalmente,
seria muito menos do que a espessura da mais delgada cascade laranja.
Aliás, é muito variável a espessura da crosta terrestre Porquanto
há zonas, sobretudo nos terrenos vulcânicos, onde o calor e a
flexibilidade do solo indicam que ela é pouco considerável. A
elevada temperatura das águas termais constitui igualmente indício
de proximidade do foco central.
Assim sendo, evidente se torna que o primitivo estado de fluidez
ou de flacidez da Terra há de ter tido como causa a ação do calor
e não a da água. Em sua origem, pois, a Terra era uma massa incandescente.
Em virtude da irradiação do calórico, deu-se o que se dá com toda
matéria em fusão: ela esfriou pouco a pouco, principiando o resfriamento,
como era natural, pela superfície, que então endureceu, ao passo
que o interior se conservou fluido. Pode-se assim comparar a Terra
a um bloco de carvão ao sair ígneo da fornalha e cuja superfície
se apaga e resfria, ao contacto do ar, mantendose-lhe o interior
em estado de ignição, conforme se verificará, quebrando-o.
Na
época em que o globo terrestre era uma massa incandescente, não
continha nenhum átomo a mais, nem a menos do que hoje; apenas,
sob a influência da alta temperatura, a maior parte das substâncias
que a compõem e que vemos sob a forma de líquidos ou de sólidos,
de terras, de pedras, de metais e de cristais, se achavam em estado
muito diferente. Sofreram unicamente uma transformação. Em conseqüência
do resfriamento, os elementos formaram novas combinações.
O ar, enormemente dilatado, decerto se estendia a uma distância
imensa; toda a água, forçosamente transformada em vapor, se encontrava
misturada com o ar; todas as matérias suscetíveis de se volatilizarem,
tais como os metais, o enxofre, o carbono, se achavam em estado
de gás. O da atmosfera nada tinha, portanto, de comparável ao
que é hoje; a densidade de todos esses vapores lhe dava uma opacidade
que nenhum raio de sol podia atravessar. Se nessa. época um ser
vivo pudesse existir na superfície do planeta, apenas seria iluminado
pelos revérberos sinistros da fornalha que lhe estava sob os pés
e da atmosfera esbraseada; ele nem sequer suspeitaria da existência
do Sol.
O
primeiro efeito do resfriamento foi a solidificação da superfície
exterior da massa em fusão e a formação ai de uma crosta resistente
que, delgada. a princípio, gradativamente se espessou. Essa crosta
constitui a pedra chamada granito, de extrema dureza, assim denominada
pelo seu aspecto granuloso. Nela se distinguem três substâncias
principais: o feldspato, o quartzo ou cristal de rocha e a mica.
Esta última tem brilho metálico, embora não seja um metal.
A camada granítica foi, pois, a primeira que se formou no globo,
é a que o envolve por completo, constituindo de certo modo o seu
arcabouço ósseo. É. o produto direto da consolidação da matéria
fundida. Sobre ela e- nas cavidades que apresentava a sua superfície
torturada foi que se depositaram sucessivamente as camadas dos
outros terrenos, posteriormente formados.
O
que a distingue destes últimos é a ausência de toda e
qualquer estratificação; quer dizer: ela forma uma massa compacta
e uniforme em toda a sua espessura, que não é disposta em camadas.
A efervescência da matéria incandescente havia de produzir nela
numerosas e profundas fendas, pelas quais essa mesma matéria extravasava.
O efeito seguinte do resfriamento foi a liquefação de algumas
matérias contidas no ar em estado de vapor, as quais se precipitaram
na superfície do solo. Houve então chuvas e lagos de enxofre e
de betume, verdadeiros regatos de ferro, cobre, chumbo e outros
metais fundidos. Infiltrando-se pelas fissuras, essas matérias
constituíram os veios e filões metálicos.
Sob o influxo desses diversos agentes, a superfície granítica
experimentou alternativas decomposições. Produziram-se misturas,
que formaram os terrenos primitivos propriamente ditos, distintos
da rocha granítica, mas em massas confusas e sem estratificação
regular.
Vieram,
a seguir, as águas que, caindo sobre um solo ardente, se vaporizavam
de novo, recaíam em chuvas torrenciais e assim sucessivamente,
até que a temperatura lhes facultou permanecerem no solo em estado
líquido.
Posteriormente, a formação dos terrenos graníticos que dá começo
à série dos períodos geológicos, aos quais conviria se acrescentasse
o do estado primitivo, de incandescência do globo.Tal o aspecto
do primeiro período, verdadeiro caos de todos os elementos confundidos,
à procura de estabilização, período em que nenhum ser vivo podia
existir. Por isso mesmo, um de seus caracteres distintivos, em
geologia, é a ausência de qualquer vestígio de vida vegetal ou
animal.
Impossível se torna assinar duração determinada a esse período,
do mesmo modo que aos que se lhe seguiram. Mas, dado o tempo que
se faz mister para que uma bala de determinado volume, aquecida
até ao branco, se resfrie na superfície, ao ponto de permitir
que uma gota dágua possa sobre ela permanecer em estado liquido,
calculou-se que, se essa bala tivesse o tamanho da Terra, necessários
seriam mais de um milhão de anos.
Transcrito do
livro "A GÊNESE" de Allan Kardec
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