Astros errantes,
os cometas, ainda mais do que os planetas, que conservaram a
denominação etimológica, serão os guias que nos ajudarão a transpor
os limites do sistema a que pertence a Terra e nos levarão às
regiões longínquas da extensão sideral.
Mas, antes
de explorarmos os domínios celestes, com o auxílio desses viajantes
do Universo, bom será demos a conhecer, tanto quanto possível,
a natureza intrínseca deles e o papel que lhes cabe na economia
planetária.
Alguns hão visto, nesses astros dotados de cabeleira, mundos
nascentes, a elaborarem, no primitivo caos em que se acham,
as condições de vida e de existência, que tocam em partilha
às terras habitadas; outros imaginaram que esses corpos extraordinários
eram mundos em estado de destruição e, para muitos, a singular
aparência que têm foi motivo de apreciações errôneas acerca
da natureza deles, isso a tal ponto que não houve, inclusive
na astrologia judiciária, quem não os considerasse como pressagiadores
de desgraças, enviados, por desígnios providenciais, à Terra,
espantada e tremente.
A lei de variedade se aplica em tão larga escala nos trabalhos
da Natureza, que admira hajam os naturalistas, os astrônomos
e os filósofos fabricado tantos sistemas para assimilar os cometas
aos astros planetários e para somente verem neles astros em
graus mais ou menos adiantados de desenvolvimento ou de caducidade.
Entretanto, os quadros da Natureza deveriam bastar amplamente
para afastar a observador da preocupação dó perquirir relações
inexistentes e deixar aos cometas o papel modesto, porém, útil,
de astros errantes, que servem de exploradores aos impérios
solares.
Porque, os corpos celestes de que tratamos são coisa
muito diversa dos corpos planetários; não têm por destinação,
como estes, servir de habitação a humanidades. Vão sucessivamente
de sóis em sóis, enriquecendo-se, às vezes, pelo caminho, de
fragmentos planetários reduzidos ao estado de vapor, haurir,
nos focos solares, os princípios vivificantes e renovadores
que derramam sobre os mundos terrestres.
Se, quando
um desses astros se aproxima do nosso pequenino globo, para
lhe atravessar a órbita e voltar ao seu apogeu, situado a uma
distância incomensurável do Sol, o acompanhássemos, pelo pensamento,
para visitar com ele as províncias siderais, transporíamos a
prodigiosa extensão de matéria etérea que separa das estrelas
mais próximas o Sol e, observando os movimentos combinados desse
astro, que se suporia desgarrado no deserto infinito, ainda
aí encontraríamos uma prova eloqüente da universalidade das
leis da Natureza, que atuam a distâncias que a mais ativa imaginação
mal pode conceber.
Aí, a forma elíptica toma a forma parabólica e a marcha se torna
tão lenta que o cometa não chega a percorrer mais que alguns
metros, no mesmo tempo durante o qual, em seu perigeu, percorria
muitos milhares de léguas. Talvez um sol mais poderoso, mais
importante do que o que ele acaba de deixar, exerça sobre esse
cometa uma atração preponderante e o receba na categoria de
seus súditos.
Então, na vossa pequenina Terra, em vão as crianças
espantadas lhe aguardarão o retorno, que haviam predito, baseando-se
em observações incompletas. Nesse caso, nós, que pelo pensamento
acompanhamos a essas regiões desconhecidas o cometa errante,
depararemos com uma nação nova, que os olhares terrenos não
podem encontrar, inimaginável para os Espíritos que habitam
a Terra, inconcebível mesmo para as suas mentes, porquanto ela
será teatro de inexploradas maravilhas.
Chegamos ao mundo astral, nesse mundo deslumbrante dos vastos
sóis que irradiam pelo espaço infinito e que são as flores brilhantes
do magnífico jardim da criação. Lá chegados, apenas saberemos
o que é a Terra.